A Moderna Vara de Pesca de Grafite

Recentemente, aumentaram muito as perguntas sobre os conceitos e especificações das varas de pesca.

Provavelmente pelo aumento da facilidade de comunicação, com a introdução da internet em maior número de lares, e do próprio aumento do número de pescadores com vontade de evoluir e se informar melhor.

Algumas perguntas específicas como a diferenciação para as diversas modalidades, ação, qualidade de componentes, itens de diferenciação, são as mais comuns.

Entretanto, para melhor compreender esse vasto universo, cada vez mais rápido na evolução tecnológica, devemos ter em mente os conceitos fundamentais dos materiais que compões nossas companheiras.

A Vara de Pesca e a Tecnologia

Muitas vezes o pescador depara com questões complicadas que dificultam a interpretação dos novos materiais que surgiram em nosso país nos últimos 12 anos. Principalmente os iniciantes, que são pegos de surpresa ao encarar um arsenal enorme e variadíssimo e, na maioria das vezes, mal informado, compra o equipamento errado.

A velha questão da falta de informação técnica continua fazendo a grande diferença entre boas e más lojas de pesca e bons e maus pescadores.

Com o avanço tecnológico dos materiais de pesca, diretamente atrelado ao desenvolvimento da indústria aeroespacial, a vara, a peça mais importante da tralha de um pescador, é a que, sem dúvida, em maior grau e mais rapidamente progrediu e progride.

A progressão deu-se tão rápida, principalmente nos últimos anos, que no Brasil encontramos ainda varas com tecnologia desenvolvida há mais de 50 anos, ao lado de outras criadas a menos de 10 anos, deixando tantas alternativas de produtos que fica cada vez mais difícil discernir o material adequado, principalmente para quem não está bem informado.

Agravando o quadro, os preços dos produtos mais antigos são bastante convidativos, já que sua matéria prima e componentes são baratos e a técnica de montagem rudimentar e de baixo custo.

Como saber então identificar o produto mais moderno e mais adequado a cada modalidade de pesca?

Em primeiro lugar deve-se saber a grande diferença entre varas de grafite, mistas (ou compostas) e de fibra-de-vidro.

Um pouco de teoria

Cabe aqui uma explicação sobre qual a relação entre a grafite e o carbono.  O carbono é um elemento químico, constante da tabela periódica, ao qual associam-se outros elementos para produzir formas moleculares que comporão as matérias-primas de determinados produtos industriais.

O carbono apresenta algumas formas alotrópicas como o diamante, a grafite, o carbono amorfo e, recentemente, os fulerenos ou futebolenos. Encontra-se altamente difundido na natureza, principalmente em formas combinadas e é também o principal constituinte de toda matéria animal e vegetal, carvão, petróleo e gás natural.

 Assim POLICARBONATO, POLIESTIRENO, BUTANO, são compostos químicos que possuem o carbono como componente, e invadem a sua residência na forma de potes, lâminas plásticas, embalagens de produtos, painéis, gás de cozinha etc. O próprio homem é tratado pelos Ets, em alguns filmes de ficção científica, como — “compostos de carbono que infestam o Universo”.

Tanto a fibra de vidro como a fibra de grafite são materiais compostos, resultantes de um processo químico e industrial de combinação, desenvolvido para a formação de materiais resultantes com propriedades combinadas. A grande vantagem dos materiais compostos resultantes é a de que eles juntam as melhores qualidades dos materiais que os compõe.

São formados através de um processo que envolve duas fases (descontínua e contínua), comumente chamadas de reforços e matriz ou filamentos e resinas.

Os materiais mais utilizados hoje na indústria aeroespacial são os reforços como fibra de vidro, kevlar, grafite, boro e titânio e as resinas epóxi, fenólica e poliéster.

Dessa forma, a fibra de grafite é uma composição química formada por elementos químicos, resultante de um processo de produção de materiais compostos, dos quais o carbono, na sua forma alotrópica — a grafite — é um deles.

Quando se fala que uma vara é de carbono ou de fibra de grafite fala-se de coisas diferentes, pois a vara de fibra de grafite certamente tem carbono, mas a de carbono pode não ter grafite.

Como um exemplo - forçando a barra - de propaganda enganosa, poder-se-ia dizer que uma vara que é de fibra de vidro, mas que tem o reel-seat (onde encaixa o molinete) de nylon (composto de carbono) e vem num saco plástico (composto de carbono) é mista de fibra de vidro e carbono; a vara pode até ser boa, mas a propaganda não reflete a realidade.

Quando se diz que a vara é de fibra de grafite é porque ela tem o seu tubo fabricado com esse material, total ou parcialmente, e é uma propaganda mais honesta.

Como outros elementos químicos podem e devem ser utilizados para compor a fibra de grafite, quanto maior for a quantidade de grafite que é utilizada na composição da fibra, melhor será a vara, apesar de também encarecê-la. Assim uma vara 100% fibra de grafite será mais cara que uma vara 30% fibra de grafite.

A forma com que é construída e os materiais que são utilizados na construção afetarão diretamente a performance da vara e, sendo assim, uma vara 100% fibra de grafite pode ser pior do que uma que contém apenas 30% ou 40% desse composto, se esta for fabricada com tecnologia mais moderna e atender melhor às suas especificações.

A fibra de grafite, como um dos compostos constituintes da vara de pesca, possui características muito superiores às da fibra de vidro, mas alguns defeitos fazem com que o composto precise de uma espécie de aditivo para tornar-se viável.

Um desses defeitos é o fato dela ser muito rígida e quebradiça. A rigidez é uma boa qualidade, mas ser quebradiça fez com que as indústrias a associassem com a fibra de vidro, para torná-la utilizável.

A evolução da tecnologia também tornou possível a construção da fibra de grafite com associação de metais, tornando os tubos de varas mais leves, resistentes e perfeitos, pois os metais possuem propriedades físicas semelhantes à da grafite e outras melhores, que adicionam recursos às varas.

Como dissemos anteriormente, a criação de materiais compostos tem como objetivo a criação de outros que reúnem as melhores propriedades dos seus componentes. A fibra de grafite com metais aumenta muito a performance da vara, pois reúne propriedades benéficas existentes nos metais que, ou não existiam na fibra de grafite (resistência) ou já existiam e as ampliam (condutibilidade).

Condutibilidade é uma das grandes propriedades físicas da grafite e dos metais.  Quanto mais fibra de grafite e melhor associação de elementos “saudáveis” a vara tiver, mais condutiva ela será.  Assim as varas 100% fibra de grafite com ligas de metais (níquel, boro, titânio, etc.) serão muito mais condutivas do que as de fibra de grafite com fibra de vidro ou 100% fibra de vidro, pois os metais são excelentes condutores e somam sua propriedade à grafite.

Essa propriedade faz com que tenhamos maior sensibilidade na pesca com iscas naturais ou iscas artificiais plásticas (minhocas, por exemplo), passando a vara a ser uma extensão do anzol, sentido-se cada toque que é dado na isca, por mais suave que seja.

Duas características conjuntas da grafite, a rigidez e a velocidade de recuperação tornam-se também importantes porque se traduzem em fisgadas muito mais eficazes, arremessos muito mais longos e trabalhos de iscas melhores e mais fáceis, entre outras.

No entanto, a fibra de vidro possui uma propriedade imbatível, que é a elasticidade, tornando as varas com essa característica mais eficazes em brigas pesadas e longas, como as com peixes de bico e grandes peixes de couro.  Para tanto, criaram-se as varas “composite” que são mistas de fibra de grafite e fibra de vidro, mas com maior porcentagem de fibra de vidro em sua composição.

A revolução

Na década de 70 surge a vara de pesca que utiliza a fibra de grafite, composto de carbono largamente utilizado na indústria aeroespacial, como matéria prima associada à velha e boa fibra-de-vidro.

Revolucionária, a vara muito mais leve, atendia a todas as exigências requeridas para um bom produto, melhorando a performance a níveis nunca antes imaginados.

Como podia uma vara mais fina, mais leve, mais dura, resistir às mesmas pressões, pesos e tensões que as tradicionais varas de fibra, grossas, pesadas, generosamente fortes e flexíveis?

Não deu outra, a fibra de grafite emplacou e em ritmo acelerado foi substituindo a concorrente em quase todas as categorias de pesca, muitas vezes, como nas categorias muito pesadas, aliando-se à fibra de vidro.

Para entender a coisa um pouco melhor, deve-se saber que a vara precisa cumprir algumas metas lógicas, com a maior perfeição possível, ou seja, atingir os níveis máximos ou o mais próximo disso, estipulados para as metas.

Assim, a vara de pesca deve arremessar bem, fisgar bem, trabalhar bem iscas artificiais, resistir a grandes forças e tensões durante muitas horas, etc.

Os índices para essas metas são determinados em constantes pesquisas, por cientistas e engenheiros, e as varas devem atingi-los.  Por exemplo, uma vara de 1,80 metro, para peso de arremesso de até 30 gramas, deve atingir a distância média de 45 metros em seus arremessos, com determinada bitola de linha.  Se a vara for testada e atingir a essa marca ela estará dentro da classificação de bom produto nessa categoria, se ela superar ficará acima da média e conseqüentemente um produto mais vendável.  Como todos os fabricantes conhecem as habilidades dos seus produtos e as dos seus concorrentes, eles exploram as suas vantagens em sua propagandas.

Modalidade de Pesca

A vara será destinada à pesca com iscas artificiais, iscas naturais ou um misto dos dois?

Será utilizada para peixes de grande porte, como pirararas, garoupas, atuns, peixes esportivos e briguentos como dourados, robalões e tucunas da Amazônia?

Será utilizada com molinete ou carretilha, para arremessos longos ou curtos e precisos, fisgadas fortes, arremesso ou corrico?

Se você vai pescar com artificiais no sistema de lançamentos (arremesso e recolhimento) uma vara mais leve, que arremesse mais facilmente, mais rápida para que possa ter melhores respostas da isca, será a escolha ideal.  Nesse caso as varas de grafite, sem a menor dúvida.

Pirararas no Araguaia, força extrema de luta, linha grossa, uma vara que possa absorver parte da força do peixe para o pescador e possa multiplicar a força do pescador para o peixe. 

Para isso tem que ter flexibilidade relativa, compensatória de forças e ação resultante máxima. Uma vara mista de grafite com fibra de vidro, parede grossa, alto grau de conicidade do butt para o tip e comprimento adequado à flexibilização, com guias próprias para compensação de forças no blank e anéis com baixo grau de abrasão e alta dissipação de calor.

Outro ponto importante é que dada a atual tecnologia dos materiais de pesca e do atual quadro de peixes no Brasil, muito foi diminuído na potência dos equipamentos.

Com as raras exceções dos violentos peixes de couro das águas do norte (bacia Amazônica) ou pescas específicas em água salgada, como garoupas, tubarões, peixes de bico, as antigas varas de 35 libras e 40 libras, foram hoje perfeitamente substituídas pelas 25 libras de grafite, que dão conta de quase todo o resto, mesmo com iscas naturais.

As varas de tecnologia mais antigas, ainda fabricadas e muitas vendidas, ainda têm lugar no mercado pelo seu baixíssimo custo de aquisição.  Aos poucos os pescadores que utilizam esses materiais vão percebendo as diferenças e, dependendo do interesse na evolução, passam a materiais mais modernos, precisos e confortáveis.

Hoje se encontra no mercado brasileiro uma enorme variedade de varas de grafite, de países que desenvolveram técnicas de montagem e linhas de produção racionais e que conseguiram tornar seus produtos melhores e mais baratos.  O que resta a nós, pescadores, é saber identificar o que mais nos convém em performance, qualidade e preço, e para isso precisamos ler e perguntar mais.

Preço e Qualidade

Infelizmente a associação de preço e qualidade é real. A qualidade não só dos tubos mas também dos componentes é diretamente proporcional ao preço final da vara, isto é, quanto melhor a qualidade da vara e componentes mais alto é o seu preço.

No entanto, assim como você pode se pode ir de São Paulo ao Rio com um Ford 57, com um moderno carro nacional ou com uma Ferrari, pode-se pescar com qualquer tipo de vara em qualquer lugar, sabendo-se que assim como nos carros que você poderá chegar exageradamente rápido e descansado com a Ferrari, em tempo ou adiantado com conforto relativo com o moderno carro e não chegar com o Ford 57, as varas podem lhe ajudar a pescar melhor, com mais precisão e conforto ou pior e até mesmo não pescar, bastando citar o exemplo do pessoal que chega a Amazônia para pescar tucunarés, com iscas artificiais, com varas completamente desapropriadas. Não conseguem nem arremessar as iscas e saem reclamando a falta de peixe.

A questão final nos coloca frente a frente com o dilema de saber se o fator fundamental para uma boa pescaria é a sorte ou se o conhecimento e bons e apropriados materiais diminuem sensivelmente esse fator aleatório.

Assim como dizem alguns irredutíveis e teimosos pescadores — “... o peixe nunca vai acabar e vamos continuar matando tudo...”, “... o computador não serve para nada, vou continuar com minha máquina de escrever...”, “... a vara de pesca de grafite nunca vai substituir meu velho e bom bambu...” — hoje são vendidas milhares de varas telescópicas, muito mais práticas e leves que o tradicional bambu, e com uma incrível variedade de preços e qualidade (a partir de $7,00 até mais de $300,00), tudo graças à fibra de grafite da década de 70.

A Vara de Pesca e as Redes Elétricas

Apesar dos muitos avisos contidos nas embalagens das varas de pesca modernas e do alerta dado pelos vendedores das lojas de materiais para pesca, ainda acontecem casos de pescadores feridos ou mortos em acidentes por descargas elétricas oriundas de rede de eletrificação, principalmente nas represas ou lagos situados próximos a redes de alta voltagem.

O que muitos alegam é o desconhecimento dos fatos que originam tais acidentes, mesmo porque os avisos nas embalagens, apesar de conterem a mensagem de “manter fora do alcance de redes elétricas” e “cuidado com raios”, não explicam exatamente o real motivo do alerta.

Condutividade – O culpado é o Carbono

Deixando de lado o blá-blá-blá científico e falando em linguagem bem simples, imaginemos que a corrente elétrica, essa coisa que passa nos fios e acende as lâmpadas e faz funcionar quase tudo que usamos hoje em dia, seja composta por zilhões de elétrons, se movimentando de um lado para o outro, contínua e interminavelmente, desde o local da onde se produz — as usinas — até as indústria e as nossas casas, e retornando. Como os elétrons são inteligentes adotam sempre o caminho mais fácil, ou seja, com menos resistência ou com melhor condução.

A característica de “condução” da eletricidade é chamada de “condutividade” e é maior ou menor de acordo com o tipo de material utilizado.

Isso significa que a corrente elétrica seguirá sempre o meio mais condutivo, fazendo com que os elétrons pulem de um meio para outro facilmente.

Em nossa residência os fios são encapados justamente para evitar que escolham outro local para continuarem, como, por exemplo, nosso corpo quando inadvertidamente tocamos um fio desencapado ou mesmo um terminal como uma tomada.

As grandes redes de distribuição, por estarem em contato com o ar (um meio de baixa condutividade), não necessitam de isolamento e por isso os seus cabos são desencapados

O ar, geralmente, é um péssimo condutor, mas quando está bastante úmido, como nos dias chuvosos, ou muito próximos de locais onde existe evaporação intensa (lagoa, represas, piscinas, praias etc), ele se torna melhor condutor e pode fazer com que os elétrons trafeguem por ele, como os raios e os arcos voltaicos.

As modernas varas de pesca de fibra de grafite, principalmente aliada a metais, são excelentes condutoras elétricas.

Arco Voltaico

Como dissemos anteriormente, os elétrons escolhem sempre o meio mais condutivo e por isso é necessário o isolamento (fios encapados).

Também relativo à boa capacidade condutiva e um meio favorável, os elétrons podem “saltar” de um ponto a outro muito próximo, continuando o curso da corrente elétrica.

Isso pode ser perfeitamente visto nos filmes do Frankstein onde aqueles grandes terminais elétricos que geravam a força para ressuscitar o monstro lançavam raios de uma ponta à outra.

Também nas feiras de ciência e até como elementos decorativos, existem os globos aonde os raios vão de um terminal para o outro sem ter nenhum tipo de fio ligando.

Esse fenômeno chama-se arco voltaico e nada mais é do que os elétrons pulando de um lado para o outro dando continuidade à corrente elétrica.

O Perigo Real para o Pescador

Varas de fibra de carbono, e até mesmo as de fibra de vidro tubulares — e redes elétricas são incompatíveis.

Não há nem a necessidade de contato das varas com os fios, pois numa rede de alta voltagem com os fios desencapados, dependendo da proximidade, é o suficiente para um arco voltaico levar a energia dos fios para a vara, principalmente onde a umidade no ar é mais alta.

Além das redes elétricas, há também o enorme — e também misterioso e desconhecido — perigo dos raios em tempestades.

Muito papel seria necessário para explicar tudo sobre os raios. O simples fato de ser geralmente mortal e poder matar várias pessoas ao mesmo tempo já é motivo suficiente para sustentar todos os mistérios, mitos e pavores sobre eles.

No entanto, tomando-se alguns cuidados simples e básicos restringimos a probabilidade de um acidente à quase nada.

1— O raio geralmente atinge os pontos mais altos. Se você estiver num campo plano, provavelmente o ponto mais alto é você. Procure sempre ficar abrigado, longe de pontos altos como árvores e postes e, se não tiver jeito, deite no chão.

2— As nuvens da tempestade são eletricamente carregadas. Conseqüentemente o ar está carregado eletricamente.  Nunca aponte para cima a sua vara de pesca. Ela deve ficar no chão, de preferência embalada e longe, bem longe de você.

3— Nunca fique na água ou muito próximo a ela. A água é condutora de eletricidade e um raio que cai na água poderá afetar todos que estiverem naquele local e até muito próximo a ele. Se você estiver dentro de um barco de alumínio, pare imediatamente na margem e afaste-se do barco.

4— Utilizar calçados com solado de borracha reduz muito o risco de se levar um choque.

Com esses cuidados básicos, podemos diminuir bastante o risco de um acidente.


BOYA PESCARIAS

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